2 de julho de 2017

Baú de Saudade - Imaria


O tempo passa. Os dias também passam, mais rápidos ou mais lentos conforme as expectativas que neles depositamos.

Depois da turbulência dos acontecimentos "in extremis" de Fevereiro, desse mês de todas as datas tatuadas em mim, voltei a chorar por ti.

O  dia de hoje, inicio de Julho esteve ensolarado, lindo, mas senti-o tão frio,, na minha pele que não te sente.

Dei por mim, na janela de trás de casa olhando para a rua, quando pensei ver num carro que estacionava, o teu. Não eras tu, apenas a minha imaginação e o desejo inconfessado de que fosse.
E assim, com o pensamento em ti, abri o baú onde guardo a maioria das nossas recordações. São as nossas fotos, as cartas, as mensagens que ficaram desse tempo que tão depressa passou em nossas vidas.
Voltei a remexer nas mesmas coisas, as mesmas mensagens que tantas outras vezes li, mas que ao relê-las,  reavivam a minha memória auditiva julgando ouvir o som da tua voz  nas palavras escritas e já gastas de as saber de cor. Sinto-te presente.

Ao acaso, abri as  mensagens que trocámos em Janeiro de 2009.

Naquilo que escrevias retratavas o medo pelos acontecimentos que se avizinhavam, após o nosso relacionamento ter sido dado a conhecer.
Sem que o disséssemos com clareza, em cada frase nossa, revelava o medo  escondido mas que se insinuava.
Agora vejo que  a  confusão e o desnorte  pairavam em nossas cabeças.
Eu queria partir, fugir para não sei onde,  desejando ficar, por ti e, tu querias que eu partisse, ficando contigo.
O receio do futuro era tão forte para os dois.
Na manhã do dia seguinte, vieste ter comigo para me dizeres pessoalmente que tinhas decidido pelos dois, que deveríamos terminar.
A vinda dele, estava prevista para aqueles dias. Essa vinda que  temíamos, veio a justificar-se ter sentido.
Os dias que se seguiram, foram de facto muito maus para ambos e também para ele. Foram dias em que  todos sofremos. As represálias, o azedume e a vingança eram  o retrato de um  homem que vivia o doloroso sentimento da traição, essa mesma dor que tantas e tantas vezes ele me fizera sentir.
Nós sofríamos pelo amor vivido, e ele, pelo amor que deixou de viver.

Depois, revi as nossas fotos. O passeio à ilha de Tróia. Tu com o braço em volta do meu pescoço, abraçando-me com força, aquela que era similar ao teu sentimento.
Depois, as fotos intimas do nosso segundo aniversário. A seguir as fotos do nosso sexto aniversário, estando eu sentada no teu colo, num abraço carinhoso, enquanto trocávamos olhares de ternura e na boca de ambos, havia um sorriso maroto e cúmplice.
Noutras fotos estavas em  viagem na  ilha Faial.
Parecias um miúdo.
O facto de estares apaixonado, tornava-te muito mais bonito do que  aquilo que já eras.
Revi as fotos que me enviaste. Estavas com o cabelo grande, como quando eras jovem - disseste.
Sabias como tanto gostava de te ver assim.
Nas outras fotos olhei-te sentindo o mesmo sentimento de quando as vi pela primeira vez. Para mim eras o homem mais lindo à face da terra. A pessoa mais generosa e afectuosa que tinha conhecido.
Estava tão apaixonada nessa altura.
Enquanto revia as fotos, estranhamente, senti que o meu eu, abandonava o  meu ser e, agora de onde me encontrava observava-nos do alto e via nitidamente aquilo  que só o coração e a saudade permitem ver. Era como o replay de uma máquina fotográfica captado num disparo, que a força  do meu pensamento transformava num momento real. E senti-te, toquei e beijei-te.

Aquilo que fomos um para o outro, do amor que surgiu depois, ainda se tornou mais forte, depois de ultrapassadas barreiras.
 Foi o tempo  áureo do nosso amor.

Creio estar certa quando penso que agora  para ti nada mais resta, nem sequer o fugaz pensamento ou uma breve saudade.

Por fim, surgiu a ultima foto das tuas férias de verão,  de 2016.
Nessa altura  estavas vivendo a tua recente paixão. A paixão desta vez, não te deixou bonito.

Passaram-se dez anos desde o nosso começo, envelheceste. Envelheci.
Na minha memória apagaram-se todos os outros momentos que não desejo lembrar, mas que vou lembrando, talvez para me penalizar.

Começo a sentir presente, aquele maldito aperto na garganta e a angústia que o acompanha  sempre que a saudade de ti, volta decidida a ficar.

O cão, olha-me triste porque me vê chorar. Felizmente não pode  ver o estado do meu  amarfanhado e  dilacerado coração.
Estou só, sentindo-me.... nada!
Ainda fazes parte de mim, independentemente daquilo que eu possa fazer e tu possas pensar e querer.

Por  fim, reconheço que esse amor invadiu de forma diferente, cada um de nós. Eu era o dador e tu o receptor.
Não importa agora. O que foi teve de ser e, o que é, também.
Sempre senti que a minha presença na tua vida não era obra do acaso.
Talvez tenha sido para ti um aprendizado, desígnios de Deus, para tornar o teu ser mais perfeito.
De tudo, aprendi a reconhecer o amor verdadeiro.

Fechei o baú das minhas recordações como se quisesse que ficasses preso dentro  dele. Que o pensamento não mais me atormentasse,  que o coração te esquecesse.

Sinto na boca um gosto salgado. Suspeito que seja o sabor a lágrimas, daquelas que teimosamente rolam destes olhos que te olhavam fixamente, enquanto os teus, fechados, descansavam após o amor que trocávamos.

Saberiam eles que um dia não mais te poderiam fixar?


02.Jul 2017



Imaria

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